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Christophe Desjardins ou o intérprete criador
entrevista realizada em Novembro de 2005, por Diana Ferreira
fotografia: Pierre Johan Laffitte
Com um percurso invejável que inclui o lugar de solista num dos míticos agrupamentos dedicados à música contemporânea— o Ensemble Intercontemporain—, inúmeras estreias e muitas obras que lhe são dedicadas pelos compositores que vai conhecendo ao longo do seu incansável trabalho de intérprete e divulgador da nova música, o violetista francês Christophe Desjardins (Caen, 1962) conversou com a Arte no Tempo (AnT) por ocasião da sua última visita a Portugal (em Novembro de 2005).
Aproveitando o seu regresso a Lisboa, para o recital que terá lugar no dia 19 de Janeiro de 2007, na Fundação Gulbenkian, a AnT publica esta entrevista, que se espera a primeira de um ciclo de conversas que pretendemos trazer a este espaço, com uma periodicidade trimestral.
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[AnT] Por que é que escolheu a viola, quando começou a estudar música?
[CD] Na realidade, eu comecei a estudar piano aos 6 anos. Os meus pais puseram-me a mim, ao meu irmão e às minhas irmãs a estudar piano. Havia um professor que morava muito perto de nós e era muito prático, pois até podíamos ir a pé, mesmo pequenos. Aos 10 anos, tive vontade de mudar de instrumento e fui para o conservatório, onde comecei a estudar solfejo. Queria tocar um instrumento de cordas, isso era certo, mas não sei porquê a viola. Sabia que preferia um instrumento agudo— pois o meu irmão tocava contrabaixo—, mas que, com toda a certeza, não seria o violino.
Por ser demasiado agudo?
Demasiado agudo e demasiado comum, precisamente.
Decidi que seria a viola, mesmo nunca tendo ouvido uma. Os meus pais perguntaram-me “por que é que eu queres assim tanto a viola? há o violino do teu avô…”, mas eu fui peremptório ao recusar e insistir na viola….Acabámos por montar o violino com cordas de viola.
Por ser ainda muito pequeno…
Sim, eu só tinha 10 anos. Não tinha ainda uma viola pequena e comecei assim….Por um capricho.
Tinha necessidade de qualquer coisa diferente…
Sim, desconhecida.
Agora, menos próximo dos 10 anos… Como é que se tornou um intérprete de música contemporânea? Estava em Bruxelas e depois tornou-se músico do Ensemble Intercontemporain (EIC). Isso aconteceu porque o EIC era mais perto de casa?
[Entre risos] Isso conta também, mas é verdade que eu tive a sorte de ter como professor Serge Collot, um violetista da geração de Pierre Boulez que ensinava no Conservatório de Paris. Foi ele que fez a estreia absoluta de Le Marteau Sans Maître [Boulez] e também da Sequenza VI [Berio]. Era muito próximo de Berio.
Eu não fiz especialmente música contemporânea com ele, mas devo ter crescido sem sentir diferenças entre contemporânea e clássica. Penso que esse foi, desde logo, um ensinamento muito importante. Não tendo a priori nada contra a música contemporânea, com o ensino de Serge Collot sempre a encarei com muita naturalidade.
Nos anos em que estive como viola solo na Ópera de Bruxelas, tive uma experiência muito interessante com o compositor Philippe Boesmans, a quem Gérard Mortier [então do Thêathre La Monnaie, agora da Ópera de Paris] tinha pedido um arranjo de L’Incoronazione di Pompeia, de Monteverdi (— como não há versões autênticas, porque se perderam, não há senão pedaços de manuscritos e realizações mais ou menos célebres). Nessa realização contemporânea, Boesmans inseriu uma série de solos de viola, uma frase na harmonia que era dobrada pela celesta (e outras filigranas como esta), uma pequena frase solo na viola que acompanhava a voz, mas com um acompanhamento de contínuo muito original: uma vez o acordeão, outra o pianoforte, outra o cravo, outra a guitarra. Simpatizei com Boesmans (e ele parece ter apreciado a minha colaboração, uma vez que, de seguida, me propôs escrever uma obra para viola e ensemble, a que daria o título de Surfing) e, durante toda a escrita da obra (que estreámos no festival Ars Musica), estive muito ligado ao compositor, porque ele tinha necessidade de efeitos muito precisos, como um trabalho sobre o ricochet, sobre os harmónicos, coisas muito técnicas. Portanto, pela primeira vez, estive estreitamente ligado à escrita de uma obra contemporânea, solista, de grande virtuosismo, e isso deu-me mesmo muito gosto… Senti que havia qualquer coisa que me atraía nessa relação próxima, criativa e criadora, com um compositor, no sentido em que o intérprete se modifica no contacto com o compositor e o compositor modifica a sua escrita no contacto com o intérprete.
Depois houve aquele lugar no EIC, que era efectivamente mais próximo de casa, e eu ganhei o concurso. E as coisas seguiram naturalmente.
Actualmente vê-se muitos agrupamentos e músicos que se especializam num certo período musical (só música antiga ou só música contemporânea). Qual é a sua ideia sobre este assunto? É uma imposição…?
Para a estrutura, ter uma identidade é uma necessidade. Se vamos criar uma orquestra, não podemos dizer que vamos tocar tudo: isso não é possível….Mas isso não impede que os agrupamentos que tocam determinado período incluam gente que faz outras coisas. Nesse sentido, creio que todos os agrupamentos dedicados a um determinado tipo de música— por exemplo, à música contemporânea— só têm a ganhar se os seus músicos fizerem outras coisas, segundo as suas afinidades— música romântica, música barroca… Creio que isso pode enriquecer o grupo mas, como identidade, é fundamental ter-se um objectivo delimitado.
Mas acredita que um músico que interpreta música de diferentes períodos apenas ganha ou também perde?
… Não sei se há uma regra universal…
O Christophe toca sobretudo música contemporânea, mas também toca Bach…
Bom, falando de mim, há que considerar a o facto particular de haver muito pouco repertório clássico para viola solo. Na verdade, tirando algumas obras de Mozart, Berlioz, Schumann e Brahms, o repertório para viola solo só existe no século XX; começa com Hindemith (e também Reger) e depois estende-se pela segunda metade do século.
Há um enorme repertório para viola em música de câmara e de orquestra. Há todo o repertório para quarteto de cordas, em cerca de 200 anos, que é muito importante.
Mas o repertório solista é pouco significativo em tudo o que é clássico. Mesmo no barroco: não é interessante tocar concertos de compositores desconhecidos, da época de Manheim. Não tem importância alguma. [>]
